Reflexões

Reflexões é o espaço de pensamento autoral da Sociedade Teosófica de Portugal no website. Reúne textos escritos por membros da Sociedade sobre temas de filosofia, espiritualidade e vida interior, com a liberdade e o rigor que caracterizam o espírito teosófico.

Não é um blogue nem um arquivo sistemático. É um lugar de leitura pausada, para quem quer ir além do programa de sessões públicas e encontrar-se a si mesmo nas reflexões proporcionadas por essa leitura.

Textos

Os textos publicados nesta secção nasceram de sessões públicas da STP: apresentações, comunicações e reflexões partilhadas em encontros presenciais ou online, que mereceram ser preservadas por escrito. São contributos pessoais de membros da Sociedade, sem pretensão de autoridade nem de palavra final.

Das palavras ao encontro

Por detrás de cada texto há uma conversa, uma sala, um encontro. Se alguma destas reflexões despertou curiosidade ou vontade de aprofundar, convidamo-lo a participar nas nossas sessões.

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Ser membro da Sociedade Teosófica

Por Radha Burnier

Esta Sociedade deve ser diferente de outras organizações, devido ao seu forte e claro entendimento do caráter sagrado do seu trabalho, o qual nada menos é do que a libertação da mente humana. Se os seus membros tiverem uma verdadeira compreensão de tudo isso, tudo o que fizerem em nome da Teosofia e da Sociedade Teosófica terá uma força espiritual.

Algumas vezes surge a questão sobre o que é teosófico. De facto, muitas coisas podem ser teosóficas, o que depende do estado de ser do qual surge uma ação particular. Podemos ser professores, escritores ou donas de casa e, se existir uma pureza interna e um real interesse para com os outros, os nossos pensamentos, sentimentos e ações — cada relacionamento nosso — tornam-se teosóficos, e não podemos deixar de influenciar o mundo no sentido do bem. Num dos seus primeiros escritos, H. P. Blavatsky afirmou que, pelo facto de a consciência humana ser uma, tudo o que fizermos auxilia ou cria dificuldades aos outros, sendo que nós próprios também somos afetados pela condição geral da humanidade. J. Krishnamurti afirma, frequentemente, que a consciência humana é a consciência individual e, desta forma, o modo como vivemos e o que fazemos tem um efeito na consciência total. É como se uma gota colorida caísse na água. A gota espalha-se imediatamente e a água transforma-se, proporcionalmente à quantidade de cor da gota.

Radha Burnier (1923-2013), Presidente Internacional da Sociedade Teosófica, de 1980 a 2013.

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Lótus Branco

Por Félix Bermudes

Lótus Branco! Flor de magia e de mistério, que desdobras através dos elementos da matéria física todo o maravilhoso simbolismo da Alma Humana!

Como Ela, tu vais buscar à terra, penosamente, numa luta laboriosa e oculta de todos os momentos, no trabalho incessante das tuas raízes, o sustento da planta grosseira e informe que há de fender as águas, conquistar o ar livre, abrir-se em largas folhas ao esplendor do sol e desabrochar por fim, em pleno espaço, livre, radiosa, imaculada e linda!

E quando a tua corola se debruça na superfície dos lagos espelhados, as pétalas de neve que balançam na brisa a sua alvura sem mancha, para sempre perderam a memória do lodo, onde as tuas raízes se revolvem e afundam, na ânsia de colher para ti a pura essência da vida que te anima.

Os teus estames de oiro, espiritualizados de fecundo pólen, elevam para Deus, na catedral azul das águas mansas, a sua aspiração religiosa, toda banhada de paz e de silêncio.

Através dessa haste flexível que te ergue da terra para o céu, da treva para a luz, da vasa negra e corrupta para a brisa balsâmica dos lagos; através do canal que te liga com as humildes raízes que te dão vida e sustento, elas te enviam o que de melhor e de mais puro sabem colher no coração da terra, ó Nenúfar Sagrado, Lótus Branco simbólico, pureza toda feita de lama, radiação toda feita de sombra, esplendor todo feito de vasa!

É assim a Alma Humana, ó Lódão Sagrado! É assim como tu — a flor radiosa e esplêndida, toda emanada de podridão da terra e da miséria que late no fundo viscoso dos lameiros.

Somos nós as raízes, que buscamos ansiosamente, cá em baixo, na sombra, as essências mais puras do Pensamento e da Emoção, para com elas gerar, desenvolver e expandir a flor preciosa e excelsa, o o "Lótus Branco" da nossa Alma Espiritual.

Erguendo-nos pela força omnipresente do Espírito, desde a lama até ao céu, desde o fundo dos pântanos até aos pés de Deus, aproveitemos a maravilha desta portentosa ascenção para lhe suplicar uma esmola de Paz a derramar sobre todas as coisas.

 

Félix Bermudes (1874-1960). In: A Poesia do Espírito, Lisboa, 1958. Bermudes foi Secretário-Geral e Vice-Secretário-Geral da Sociedade Teosófica de Portugal, em períodos alternados, entre 1944 e 1960.